Quando alguém diz que bloqueou o número e "ele continua ligando", quase nunca é defeito do celular. Na nossa leitura, é o sinal de que do outro lado não existe um número, e sim um sistema ou uma pessoa que já conta com o seu bloqueio. Por isso a pergunta útil não é "como bloquear melhor", mas "quem está ligando e por que consegue voltar".

Por que o bloqueio não segura a ligação

O bloqueio do Android e do iPhone é uma lista local: o aparelho compara o número que chega com essa lista e silencia a chamada. Na rede, nada muda. Isso deixa três brechas conhecidas:

  • Troca de número. Centrais de telemarketing e cobrança usam discadores que alternam entre dezenas de linhas. Você bloqueia uma e a próxima já está na fila.
  • Número privado. Quem liga com a identificação oculta não bate com a sua lista, porque não há número para comparar.
  • Número falsificado. Golpistas conseguem exibir qualquer número no visor, até o seu próprio, como explicamos em receber ligação do seu próprio número.

Quando quem liga é empresa

Se as chamadas têm cara de oferta ou cobrança, a solução está na origem, não na lista do celular. Cadastre o número no Não Me Perturbe, que cobre ofertas das operadoras e de crédito consignado, e filtre o prefixo 0303, que a Anatel exige em ligações comerciais em massa. O passo a passo está no guia como bloquear telemarketing e chamadas indesejadas. Se a empresa insistir, registre reclamação no consumidor.gov.br, no Procon ou na Anatel pelo 1331, com datas e horários anotados.

Filtros que pegam o que a lista não pega

No iPhone, "Silenciar Desconhecidos" (Ajustes > Telefone) manda para o correio de voz tudo o que não está na agenda. No Android, o app Telefone do Google tem filtro de spam, e muitos aparelhos, como os Samsung, oferecem nas configurações de bloqueio a opção de barrar números desconhecidos ou privados. O preço é perder ligações legítimas de números novos, então confira o correio de voz com frequência. Antes de decidir, procure o número no nosso catálogo de números: se outras pessoas relatam a mesma insistência, você já sabe com quem está lidando.

Quando é uma pessoa, a lei tem nome para isso

Se quem liga é um ex-parceiro, um conhecido ou alguém que volta com outro chip depois de cada bloqueio, o problema deixou de ser técnico. Desde 2021, o artigo 147-A do Código Penal define o crime de perseguição: perseguir alguém de forma reiterada, por qualquer meio, ameaçando sua integridade ou invadindo sua liberdade ou privacidade. A pena é de seis meses a dois anos de reclusão e multa, aumentada de metade quando a vítima é mulher por razões da condição de sexo feminino, criança, adolescente ou idosa. A ação depende de representação da vítima, então é você quem precisa formalizar.

Documente antes de registrar

Não apague o histórico. Faça prints do registro de chamadas com data e hora, guarde mensagens de voz e anote cada número novo usado. Com isso em mãos, registre o boletim de ocorrência na delegacia ou na delegacia virtual do seu estado. A partir da ocorrência, a polícia pode pedir à Justiça que as operadoras informem quem está por trás das linhas, inclusive das chamadas como privado, algo que você não consegue sozinho, como mostramos em é possível ver um número privado. E não atenda para "resolver" a conversa: cada resposta ensina a quem persegue que insistir funciona.